top of page

O Músico e o Concerto das Sombras



Diz-se que, em tempos antigos, havia reinos vizinhos que dançavam entre a paz e a guerra como quem muda de estação — sem espanto, sem alarde. Era o ritmo daquele mundo.


No centro desses reinos transitava um homem peculiar: um músico encantador, daqueles que pareciam ter nascido com as notas correndo nas veias. Dono de uma voz que curava e de dedos que encantavam, era recebido como uma bênção onde quer que fosse. Tocava em festas de coroação, em despedidas de soldados, em casamentos e funerais. Sua arte não conhecia fronteiras.

Trazia consigo uma aura de leveza. Era bom de conversa, riso solto, vinho à mão. Tornava-se íntimo de todos com espantosa facilidade: soldados, reis, plebeus. Mas havia em seus olhos algo que poucos percebiam: um brilho inquieto, como se procurasse algo que nunca encontrava.

Numa dessas noites de vinho e risos, alguns soldados lhe fizeram uma proposta: trair sua própria vila em troca de terras. Ele recusou, ofendido. Achavam mesmo que ele se venderia por tão pouco?

O tempo passou, e com ele, vieram outras ofertas. Uma maior. Mais sedutora. Mais sombria.

Desta vez, não se tratava de sua terra natal. Os soldados falaram em nome de um nobre: ofereceram-lhe não apenas terras e riquezas, mas a mão da filha de um dos grandes senhores da guerra. E o músico... hesitou. A alma vacilou. O vinho era forte, a vaidade mais ainda.

— Não é minha vila — disse para si. — E será apenas uma canção.

Assim foi feito. Um acordo velado, uma promessa escondida entre acordes e sorrisos. Haveria uma grande festividade pública, e o músico se ofereceu para liderar o espetáculo.

O povo do reino se reuniu com alegria. A data era sagrada. O palco foi montado no centro da cidade, e o céu parecia sorrir sobre eles.

Naquela noite, o músico foi além de si. Tocou como nunca. Suas melodias invadiram o coração das pessoas, fazendo-as rir, chorar, cantar. O vinho corria como bênção. O povo dançava sem saber que a dança era a última. A música hipnotizava. Era o feitiço.

E no instante certo — no compasso perfeito — o ataque aconteceu.

Ninguém teve tempo de gritar. O massacre foi silencioso. A música continuava ao fundo, como se embalasse a morte.

O músico? Sobreviveu. Casou-se. Recebeu as terras prometidas. Mas não foi feliz.

Como poderia ser?

Com o passar dos séculos — vidas e vidas — aquela noite passou a ecoar em sonhos. Vozes gritavam seu nome. Espíritos arrastavam correntes invisíveis ao seu redor. Ele sofria dores sem causa aparente. Doía o corpo, doía a alma. Como se cada nota daquela noite voltasse como uma lâmina invisível.

Hoje, nesta nova encarnação, ele sente. Não lembra, mas sente.

E algo dentro dele desperta. Uma suspeita, um eco. Uma herança sombria no seu DNA. Uma dor que não é dele, mas que lhe pertence.

Com o coração quebrado e as mãos agora vazias de ambição, ele ergue o olhar para o Alto e clama:

— Senhor dos Exércitos Celestes... se há dentro de mim a memória de um traidor, dai-me agora o dom de curar. Que eu cante para consolar os que vagueiam sem paz. Que meu som seja bálsamo. Que a luz atravesse meu timbre. Que a arte que um dia destruiu, agora salve. E em meio à tormenta de suas dores, encontra abrigo na única coisa que não se vende: a fé.


Lição


Um instante de sedução pode custar milênios de reparação.Não se brinca com os dons que vêm da Alma. A música, como a palavra, pode ser espada ou ponte. E o perdão, quando sincero, é a nota que começa uma nova canção.


Revendo a Teoria da Razão


Vamos entender um pouquinho como se processa esse DNA que, depois de tantas experiências que se passaram, tanto tempo e ainda continua doendo. a Teoria da Razão vem clarear esses aspectos contidos em memórias tão antigas!


O arquétipo "As Consciências" é, por assim dizer, o grande depositário de memórias e vivências emocionais de uma pessoa – uma espécie de biblioteca interna, onde cada prateleira guarda registros meticulosamente empilhados de tudo o que já se sentiu, pensou e viveu. Mas não se trata apenas de um acervo nostálgico ou de um arquivo morto da psique. Pelo contrário, esse complexo organismo interno desempenha um importante papel na regulação do Sistema, sendo o responsável por integrar e reinterpretar as experiências que, sem cerimônia, foram gravadas no DNA. 

As Consciências Sistêmicas levam esse conceito a um nível ainda mais amplo: são a expressão viva da Multiplicidade Sistêmica, uma verdadeira constelação de aspectos internos que coabitam em um só ser. Elas abarcam, além das memórias e emoções, padrões comportamentais cuidadosamente arquivados ao longo da vida presente e de toda a linha ancestral que veio antes. São, portanto, tanto espelho quanto eco, "refletindo o que somos e sussurrando o que já fomos."
As Consciências têm a nobre – e um tanto trabalhosa – função de integrar experiências fragmentadas, essas heranças emocionais passadas de geração em geração, delicadamente embutidas no DNA, como segredos de família que insistem em se perpetuar. Tudo isso é armazenado no enigmático "Banco do Povo", um reservatório sistêmico de memórias que, longe de ser apenas um cofre de lembranças, constitui um dos pilares da evolução consciente do Sistema.
A Teoria da Razão propõe um estudo meticuloso desses Sistemas, não como um mero exercício filosófico, mas como um caminho para compreender, de maneira racional, a complexa realidade interna. Longe de se perder em julgamentos e apontar dedos, essa abordagem desfaz a velha ilusão de culpa: ninguém é responsável pelos acontecimentos na vida de ninguém – ou, ao menos, não da forma simplista que gostaríamos de acreditar.
Em vez disso, a Teoria oferece ferramentas precisas para explorar a mente, corrigir equívocos e dissolver limitações que, por vezes, parecem intransponíveis. A promessa é ousada, mas tentadora: assumir o controle total sobre o próprio Sistema e, no processo, encontrar um propósito real.
Ao lançar luz sobre a dinâmica das Consciências e os meandros do Sistema, a Teoria da Razão funciona como um mapa preciso ou, para os mais dramáticos, como um farol em meio ao nevoeiro. Sua promessa? Ajudar a evitar escolhas nocivas, aquelas que, à primeira vista, parecem tentadoras, mas depois se revelam verdadeiras armadilhas existenciais. Com uma mente mais clara, as decisões deixam de ser impulsos cegos e passam a ser construções conscientes.

Comentários


bottom of page